Revolução Russa de 1905: os antecedentes da primeira revolução do século XX e a influência de Gapom, padre da igreja ortodoxa russa.

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Introdução

No início do século XX o povo russo, liderado pelo Czar Nicholau II, passava fome e frio, trabalhando incessantemente sob péssimas condições para obter menos do que o necessário para se viver dignamente.  Ao mesmo tempo, o Czar e sua família desfrutava do luxo e riqueza patrocinado pelo trabalho incessante do povo e ofereciam constantes festas e bailes a burguesia.

O povo russo, cansado de sua situação degradante e estimulados por antecedentes favoráveis, em 1905 fez com que a primeira revolução daquele século acontecesse, seja pelo desejo de mudança da realidade em que se encontravam ou pela grande influência de Gapom, padre da igreja ortodoxa russa que conduziu a revolução e as demandas do povo, de forma oportunista ou não, como irei explorar mais a seguir.

Na busca em romper com a exploração que lhes era imposta e tendo alguns acontecimentos antecedentes que, em relação direta ou indireta, serviu para inflamar o ímpeto revolucionário, o trabalhador russo tendo a frente o papel de Gapom na agitação do clamor social saí da adoração e aceitação ao Czar e vai contestar os direitos e deveres que lhes eram impostos. Na luta por mudanças do sistema político e trabalhista que se transformou na revolução de 1905.

Antecedentes

No contexto da época se dá o fato de que anos antes de 1905, milhares de servos foram liberados do campo, se dirigindo ao encontro do capitalismo russo urbano do qual a realidade industrial não era propícia a recebê-los adequadamente, devido a falta de garantias a direitos trabalhistas já adotados pelos países vizinhos e remunerações que não permitiam o suprimento das necessidades básicas.

Visto que na época a Rússia era um país atrasado tecnologicamente comparados aos seus vizinhos e conhecido como o celeiro da Europa, pois grande parte daquilo que era produzido pela população agora “livre” era exportado e fornecia os demais países europeus principalmente com grãos. Essa mesma população não tinha acesso aquilo que produzia, operários e camponeses viam-se à margem da sobrevivência.

A negação ao acesso de fatores básicos necessários à vida como a alimentação e moradia digna pode tornar o mais devoto dos povos em lutadores sociais destemidos já que não há mais muito o que perder. Sendo assim, o povo russo que há muito lutava pelo direito à terra dada sua característica campesina, agora se vê também explorado cada vez mais em novas maneiras pelo industrialismo russo ainda atrasado em comparação com os demais países, mas em ascensão. Isso contribuiu para criação de uma consciência quanto o papel do povo nessa nova forma de sociedade assim como a necessidade de reivindicar e questionar junto a aristocracia, de forma cada vez mais agressiva, seus direitos básicos.

Gapom, padre ortodoxo da igreja russa e líder social, soube agir de forma a centralizar e agrupar o povo em direção a luta, percebendo a existência dos antecedentes pré-revolucionários como o movimento grevista de 1902 e as consequências negativas da guerra da Rússia com o Japão pode tornar mais intenso no povo o desejo de mudança e a crença na possibilidade da aceitação de suas demandas.

 O movimento grevista

Antes de 1905, entre 1902 e 1904 um grande movimento grevista se alastrou pela Rússia, principalmente pelo sul do país. Tendo como base a questão econômica e dispersão sindical e não reivindicações políticas, o movimento grevista foi um importante antecessor a revolução de 1905 por despertar em vários pontos do país o sentimento de revolta quanto ao tratamento que os trabalhadores recebiam como também o sentimento de solidariedade entre a classe operária. Rosa Luxemburgo retrata bem como se deram tais acontecimentos:

“ Inúmeros pequenos canais de lutas econômicas parciais e pequenos incidentes “fortuitos” convergem rapidamente num poderoso oceano. Em algumas semanas, todo o sul do império czaristas transformou-se numa estranha e revolucionário república democrática. ”

 No começo de 1905, dois operários são demitidos de uma fábrica em São Petersburgo, uma greve em solidariedade aos trabalhadores se espalha, a socialdemocracia percebe o momento propício e começa uma campanha de incentivo a reivindicações do povo operário.

Tais reivindicações são elaboradas em forma de petição pelo padre Gapon, o que dá início a revolução. Mesmo não tendo participado de forma direta do movimento grevista no sul da Rússia, a união do povo em tal acontecimento e a consciência social despertada serviu de base para o padre Gapom reunir os camponeses e proletários de Moscou de forma mais organizada, elaborando uma petição que teve amplo apoio do povo proletariado. Em 9 de janeiro de 1905 milhares de trabalhadores o seguiram em uma passeata pacífica até o palácio de inverno para entregar ao Czar tais reivindicações contidas na petição. Tal acontecimento, explicado melhor mais adiante, ficou conhecido como domingo sangrento.

A guerra com o Japão

A tática de criar um inimigo externo e partir para um conflito é utilizada a muito tempo na política por líderes que estão enfrentando descontentamento e forte oposição interna e desejam desviar o foco das inquietações do povo para algo que possa despertar na população um sentimento nacionalista e de união, aumentando, em caso de vitória contra esse inimigo criado, a popularidade e respeito do povo para com seu líder.

No caso da Rússia e sua guerra com o Japão, existem autores que interpretam que o Czar criou tal guerra para angariar apoio interno em contraponto a sua baixa popularidade, e desviar o foco da população que vinha cobrando mudanças no sistema político e trabalhista e participando de greves de maneira cada vez mais ativa.

Sem dúvida, o principal fator que levou à deflagração das manifestações em 1905 foi a derrota da Rússia na guerra contra o Japão. A guerra foi causada oficialmente pelo desejo do Czar da expansão territorial russa, mais precisamente pela disputa da região da Manchúria. O que parecia ser uma disputa fácil e que traria ganhos rápidos para a Rússia causou milhares de mortes de soldados russos no front e deixando outros milhares feridos. As tropas russas foram humilhantemente massacradas pelas tropas japonesas.

Além da vergonha pela derrota na guerra e o sofrimento pelas perdas, o povo russo sofria também com as implicações que a guerra trouxe ao país, a fome se alastrou ainda mais tanto pela falta de alimentos quanto pela elevação dos preços.

Com os custos da guerra recaindo sobre a classe pobre e trabalhadora, ao invés de servir como impulsor da popularidade interna do Czar, o efeito foi o contrário e a popularidade do Czar e o apoio da população à guerra se tornou cada vez menor

Caso a guerra contra o Japão tenha sido iniciada pelo Czar russo com objetivo de controlar a situação interna, com a derrota tal feito só serviu para diminuir o poder e respeito do povo pelo Czar. Ao mesmo tempo em que sua liderança está comprometida, a influência do padre Gapom emerge junto ao povo trabalhador.

Conseguindo utilizar dos descontentamentos internos agora mais aflorados, Gapom convence uma multidão a marchar até o palácio de inverno, residência do Czar, para solicitar mudanças sociais e políticas, garantindo mais direitos trabalhistas e melhores condições de vida aos trabalhadores russos.

 O Domingo Sangrento

Tais reivindicações redigidas por Gapom, refletiam o desejo do povo russo em alcançar avanços e garantias já conquistados por trabalhadores de países vizinhos como jornada de trabalho de oito horas por dia e o fim de horas extras que eram obrigados a cumprir.

Além disso, salários justos, o fim da guerra com o Japão, entrega progressiva da terra ao povo e formação de uma Assembleia Constituinte eleita por sufrágio universal e igual (com responsabilidade dos ministros perante a nação, separação entre a igreja e o Estado, liberdades democráticas) eram demandas presentes na petição que levavam redigida por Gapom.

Enquanto caminhavam até o palácio de inverno a população segurava ícones religiosos e entoava cantos e hinos patriotas de exaltação ao Czar, como: “Deus salve o Czar”, acreditando em sua bondade e disposição em seguir os preceitos da religião ortodoxa do qual era praticante.

Porém, ao invés de conseguirem a atenção do Czar, tudo que a população conseguiu foram as balas disparadas pelas armas da guarda imperial contra milhares de pessoas desarmadas, entre elas mulheres e crianças. Não se sabe ao certo o número de mortos e feridos, mas segundo as autoridades da época esse número seria de 930 pessoas mortas e 333 feridos.  Fontes anti-governo afirmaram que esse número seria bem maior, causados tanto pelos tiros quanto pelo pisoteamento da população que tentava fugir daquele momento de pânico.

Após o domingo sangrento, uma série de greves e manifestações se espalharam no ano de 1905 na Rússia, tendo vários grupos formados e protestando, mas sem uma direção geral, todos se consideravam pertencentes à mesma classe dos trabalhadores.

 Concluindo

 Os interesses de Gapom, que saiu ileso do atentado, seriam questionados posteriormente até mesmo pela classe trabalhadora e seus representantes nos sovietes. Após o domingo sangrento Gapom se exila da Rússia, mas volta anos depois, sendo executado sob acusações de trabalhar em conjunto com a polícia secreta do Czar para desmobilizar e prejudicar a classe operária.

Fica o questionamento se os interesses de Gapom na agitação social da qual ajudou a promover tinham ou não fidelidade aos interesses do povo trabalhador russo, como discordavam autores e personalidades políticas tanto da época da atualidade.

O fato é que apesar da revolução russa de 1905 ser colocada como um movimento espontâneo e sem liderança, a influência de Gapom foi imprescindível para torná-la realidade e ajudar o povo trabalhador a se organizar na busca de mudanças do sistema político e social.

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