Censura midiática nas revoluções: Parte I – REVOLUÇÃO RUSSA

Por Fernanda Samea

Numa tentativa de mostrar as diferentes formas de interlocução que fizeram parte de determinados momentos históricos, este trabalho dividido em duas partes busca mostrar o quanto os meios intercomunicacionais influenciaram, auxiliaram e até mesmo podem ser vistos como atores da Revolução Russa e da Primavera Árabe, focando principalmente na censura sofrida por aqueles que os utilizavam como forma de mobilização social contra os governos vigentes de ambas as épocas.

revolução russa

Durante 1917, a Revolução foi feita quando ainda não existia uma produção em massa midiática na Rússia, diferentemente do que já se via no Reino Unido. A mídia era feita principalmente para um pequeno grupo letrado da elite russa por uma concentração dos que detinham os meios de impressão. Mesmo assim, no período pré-revolucionário, a imprensa foi de grande importância nos acontecimentos que se seguiram.

Na época czarista, o alvo da censura governamental era este pequeno grupo russo letrado e bem organizado – visto que o nível de analfabetismo era muito alto no país – com o objetivo de proteger a Rússia de más influências externas, como efeitos indesejados da Revolução Francesa. Isso porque até o período soviético, a imprensa não era um grande instrumento da máquina estatal.

Depois da revolução na Rússia de 1905 – na qual houve uma tentativa fracassada de deposição do czar -, uma censura prévia de jornais, periódicos, livros e panfletos foi abolida em todas as cidades do Império Russo, sendo que apenas uma inspeção era realizada após a publicação e, caso o conteúdo não fosse aprovado, não conseguiam tirar de circulação o meio publicado por completo. Também nesse período, um editor conseguia uma licença para publicar através de um protocolo mandado ao governo local que era obrigado a fornecê-la em uma quinzena, o que possibilitou diversos jornais comunistas como Pravda a operarem constantemente, visto que abriam novamente sob nomes diferentes.

De 1905 a 1917, muitos jornalistas foram presos e os jornais passaram a usar nomes falsos de editores para que esse fosse perseguido ao invés dos reais. No caso dos jornais comunistas, pagar multas era pior do que retirá-los de circulação pela falta de recursos, já que a imprensa opositora era mantida pela elite autocrática e até mesmo era subornada por órgãos do governo para serem a favor do czar.

Em 1917, a maioria dos Social Democratas se pautou em atividades ilegais para espalhar programas políticos entre os trabalhadores industriais e a inteligência liberal. A imprensa bolchevique liderada por Lênin no jornal Pravda, era mais do que um meio de informação, mas um meio de propaganda e organização política.Pravda-2

O Pravda foi aberto em 5 de maio de 1912 e continuou a publicar por vários outros nomes até que em 1914, a polícia czarista acabou com as impressoras do jornal. Mesmo enfraquecida, alguns panfletos e periódicos continuaram a ser feitos em impressoras ocultas e ilegais com o objetivo de chegarem até as principais cidades e nos frontes militares da guerra. Para que isso fosse feito as condições de trabalho dos revolucionários eram horríveis, sem iluminação ou ventilação e sempre com medo de serem presos. Isso durou até a revolução de fevereiro de 1917, depois da qual o jornal voltou à legalidade pela liberdade de expressão concedida pelo Governo Provisório.

Mesmo assim, após fevereiro de 1917, a liberdade de imprensa apareceu com “rédea curta”, já que a propriedade das casas de impressão ainda eram mantidas por certas figuras que dominavam o mercado de impressão. Por isso, a maior parte do papel e maquinário usados para publicar as propagandas bolcheviques incitando revoltas eram roubados.

Houve casos de censura com editores de jornais, não somente de esquerda, como foi o caso de Miliukov, editor chefe do jornal partidário Rech do partido de direita Kadet, que foi “convencido a se retirar da sua função” e consequentemente abandonou o país por fazer uma matéria apoiando militares da época czarista e exigindo que o Governo Provisório fizesse um diálogo com eles. Outros casos foram de pessoas demitidas de suas funções dentro do próprio governo por auxiliarem ou apoiarem os jornais que continuavam com a tática de fecharem e reabrirem com outros nomes.

Para que as informações chegassem aos frontes durante a Primeira Guerra Mundial, as notícias tinham que ser disfarçadas de cartas e distribuídas em pequena escala pelos soldados de baixo escalão dos regimentos, impedindo que o órgão de censura do Governo Provisório interferisse nessa escala tão pequena de informação, mesmo que houve dupla censura dentro do regimento por oficiais pró-governo.

Da mesma forma do período pré-Revolução de fevereiro de 1917, os jornais que apoiavam o Governo Provisório tinham apoio financeiro, principalmente por meio de publicidade, e eram publicados sem restrições com a distribuição garantida, a qual foi herdada do antigo regime.

Mesmo o Governo Provisório declarando a liberdade de imprensa, o comitê executivo soviético foi acusado de confiscar 40 mil cópias do jornal bolchevique Pravda que estavam sendo preparados para distribuição no fronte caucasiano; agências de correio deixavam todos os jornais, menos aqueles com literatura bolchevique, passarem para o fronte de guerra; e também soldados que pagaram para receber cópias do Pravda, obtinham somente jornais como Rech ou Den – ambos anti-comunistas.

Em julho de 1917, abertamente foi reinstaurada a censura militar de imprensa, destruindo as bases dos jornais bolcheviques e cortando as linhas de contato entre esses e os frontes militares. O método de abrir os jornais com outros nomes e operando ainda na clandestinidade em sua maior parte foi a única solução até a Revolução de outubro de 1917, na qual bolcheviques derrubaram o Governo Provisório e assumiram o poder da Rússia.

Fontes:

PETHYBRUDGE, Roger. The Press.  In: The spread of russian revolution. The Macmillan Press LTD, 1972.

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