Quando se trata de Revolução, até um quadrado preto vira arte

Por muitas vezes, perguntamo-nos por que algumas obras de arte que parecem ter sido feitas por crianças ou por “artistas” oportunistas são tão valorizadas e aclamadas em grandes exposições de arte. Afinal, por que um mictório ou um quadrado negro pintado numa tela branca (Figura 1) merece estar em uma ala principal em um museu importante?

Talvez porque tal artista tenha sido o primeiro a pensar nisso? Muito provavelmente que sim. Mas o que levaria alguém a achar que pintar um quadrado preto seria relevante? E por que outras pessoas acharam que aquilo seria relevante?

Quadro negro

Figura 1: Quadro Negro [sobre fundo branco] (1915), de Malevich

O objetivo deste texto é tentar responder minimamente a essas perguntas e, também, mostrar porque esse quadro e o movimento artístico ao qual ele se insere merecem um texto. Mas antes, é necessário resgatar a história.

O ano 1915 fez parte do conturbado início do século XX. O mundo estava em meio à Grande Guerra, na qual novos meios de destruição estavam sendo usados. Muitas mortes foram causadas na busca por territórios que pudessem ser colonizados. A Rússia estava entre os países que participavam da guerra, mesmo sendo muito atrasada em termos de tecnologia militar se comparada aos outros países no conflito.

Havia, contudo, um crescimento das ideologias marxistas no país. Os bolcheviques, uma divisão dentro do Partido Operário Social-Democrata Russo, já começavam a ganhar mais seguidores com as promessas de pão, paz e terra – fim na crise de distribuição de alimentos, a saída da guerra e a distribuição de terra.

Em meio a esse contexto da vontade revolucionária que se expandia na Rússia, surge o movimento de vanguarda artístico russo. O primeiro movimento a surgir foi o Suprematismo que, inspirado nos movimentos artísticos do Cubismo na França e do Futurismo na Itália, passou a revolucionar a arte.

Observou-se que a abstração europeia se desenvolvia desde o início da arte moderna, o Cubismo e o Futurismo foram os principais exportadores dessa ideia. O primeiro, representado principalmente por Picasso e Georges Braque, passou a analisar o mundo a partir de uma nova racionalidade de desconstrução da realidade, uma vez que essa passava pelos desastres da guerra. O quadro Les Desmoiselles d’Avignon (Figura 2) mostra essa nova técnica, onde os traços e curvas reais são minimamente representados e substituídos por retas que desconfiguram totalmente a verdade.

Pablo Picasso - Les Desmoiselles d'Avignon (1907)

Figura 2: Les Desmoiselles d’Avignon (1907), Pablo Picasso

Já o futurismo sugere uma abstração com o objetivo de progresso, onde a obra representa o dinamismo progressista da tecnologia e a necessidade exorbitante de seguir avançando. Dessa vez, a arte passou a dar sinais de que poderia aliar-se à política, onde seus artistas militavam totalmente a favor do progressismo da época, transparecendo isso em suas obras. Aqui temos o exemplo de Dynamism of a Dog on a Leash de Giacomo Balla (Figura 3), em que o cachorro oferece a sensação de movimento acelerado e apressado ao observador.

Giacomo Balla - Dynamism of a Dog on a Leash (1912)

Figura 3: Dynamism of a Dog on a Leash (1912), Giacomo Balla

Absorvendo essas filosofias, o Suprematismo se torna independente da Europa assim como o comunismo russo. Essa nova ideologia surgia com a intenção de romper o status quo capitalista da época, importando os ideais comunistas da Europa e adaptando-os para o contexto russo, no qual, vale ressaltar, não havia ocorrido ainda um desenvolvimento industrial.

O movimento artístico percebe o progresso abstracionista europeu e acredita que a sua a arte vanguardista superaria todas as anteriores, levando à “supremacia do puro sentimento ou percepção nas artes pictóricas” – ou seja, removendo qualquer referência ao mundo real para valorizar a sensação da abstração em sua totalidade.

Assim, voltamos ao quadro que abriu o texto. O Quadro Negro, de Malevich, é o principal representante dessa ideia. Ao considerar que o quadrado é algo matemático e artificial, pintou-o no centro de uma tela em branco para instigar o observador, de modo que esse procurasse algum sentido ou racionalidade na obra, mas esta não passaria da própria pintura.

O que, então, levaria alguém a achar que pintar um quadrado preto seria relevante? Talvez por causar um desconforto, o que, de fato, deve ter ocorrido com todos que observaram a obra na exposição suprematista A Última Exposição Futurista: 0.10*.

A tela parece ser muito simples, mas a intenção do autor era totalmente oposta. Ele queria que o observador experimentasse a não objetividade com algo tão objetivo quanto um quadrado, que tentasse buscar algum sentido para aquilo ou elementos da realidade que pudesse explicar, que tentasse abstrair excessivamente para achar alguma interpretação naquele quadrado puro. Malevich, então, colocou tudo a ser pensado sobre algo que não pode sugerir nada, um quadrado. O artista reduziu o tudo ao nada.

É então que, em 1917 acontece a Revolução Russa, liderada por Lênin e tendo como base a deposição do Czar e a instauração de uma república soviética. Os ideais comunistas de socialização dos meios de produção, do comunitário e comunidade, do revolucionário em prol do povo e da justiça social conseguiram espaço na revolução, mas ainda precisavam se estabilizar, o que resultou na necessidade de criação de mecanismos de propaganda.

Nesse sentido Malevich não foi útil ao Estado Soviético, uma vez que não abdicou de sua individualidade e da arte pela arte – ou seja, o autor se negou a fazer arte com o intuito propagandista. Por conta disso, foi abandonado e faleceu na pobreza.

Contudo, outro movimento moderno com características muito parecidas prosperou nos primeiros anos da Rússia soviética: o Construtivismo. Um de seus participantes, Vladmir Tatlin (um dos principais discordantes de Malevich e que muitos afirmavam que eram inimigos artísticos**) usou sua arte como forma de estetizar a política.

Em Contra-Relevo de Canto (Figura 4), Tatlin viu nos materiais (lata, cobre, vidro e concreto) o futuro da modernização industrial, que era muito estimulada pelos bolcheviques. A escultura não chamava a atenção pelo que representava, já que não pretendia representar nada; queria atenção à textura, à natureza e ao volume dos materiais.

Contra- Relevo de Canto (1914), Vladimir

Figura 4: Contra- Relevo de Canto (1914), Vladimir

Suas temáticas, geralmente, envolviam revoluções, greves, a sociedade e questões políticas representadas por figuras abstratas como triângulos e quadrados, apenas com cores primárias e materiais de construção (como madeira, ferro e vidro). O Construtivismo conseguiu, nos primeiros anos da revolução, cumprir a tarefa de propaganda, em folhetos, grandes esculturas e livros infantis, por exemplo.

Cartaz para o departamento estatal de imprensa

Figura 5: Cartaz para o departamento estatal da imprensa de Leningrado (1924), Alexander Rodchenko

Suas crenças na mudança social por meio da arte propagandista ficaram claras no manifesto do movimento, o Manifesto Realista, de Naum Gabo e Antonie Pevsner: “Não avaliamos o nosso trabalho segundo o critério da beleza, não o pesamos com o peso da ternura e dos sentimentos. (…) edificamos a nossa época como o universo edifica a sua, como o engenheiro constrói as pontes e o matemático elabora as fórmulas das órbitas.

Contudo, a partir de 1921, com a implantação da NEP – Nova Política Econômica – a burocracia de Lênin passou a questionar duramente a utilidade do movimento Construtivista. Com Stalin, a vanguarda modernista russa foi duramente reprimida e a única arte permitida foi o Realismo Socialista, de inspiração clássica – onde valorizavam a representação fiel da realidade – e basicamente retratos que vangloriavam a figura de Stalin, Lênin e outras simbologias comunistas (Figura 6).

Lenin

Figura 6: Lenin, Isaak Brodsky

Assim, o processo de abstração da vanguarda passou a ser coagido dentro da URSS, mas trouxe consequências para os movimentos de artes plásticas da Europa e no mundo de ali em diante. Há exemplos como os movimentos Bauhaus de Kandinsky, De Stijl de Piet Mondrian, Neoconcretismo brasileiro em 1950 (Figura 7), entre outros movimentos do século XX. Essa difusão artística é tanto pioneira no mundo artístico, como também precursora de propaganda dos ideais comunistas.

Bicho em si

Figura 7:Bicho em Si (1962), Lygia Clark

*A exposição aconteceu em São Petersburgo em 1915. Leva esse nome para simbolizar o fim do futurismo (antes dos dois pontos), e o início do futurismo (0,10); o 10 faz referência ao número de artistas que se inscreveram na exposição (que na verdade acabaram indo 14); e o zero significa que eles tinham então chegado no nada.

**Uma das brigas principais foi na exposição A Última Exposição Futurista: 0.10 com relação ao posicionamento das obras. Cada autor levou a sua respectiva obra (as mencionadas anteriormente) mas ambos queriam expor no mesmo local: no canto da parede. Esse local era importante porque fazia referência aos símbolos religiosos russos que ali eram colocados nas casas das famílias. Boatos que Malevich colocou primeiro e ele e Tatlin acabaram num conflito físico.

Bibliografia

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Construtivismo Russo. Disponível em: https://www.historiadasartes.com/nomundo/arte-seculo-20/abstracionismo-geometrico/construtivismo-russo/. Último acesso em 12 de agosto de 2017.

COURI, Aline. O Construtivismo. Disponível em: https://comunicacaoeartes20122.wordpress.com/2013/01/25/o-construtivismo/. Último acesso em 12 de agosto de 2017.

GOMPERTZ, Will. Cubismo: um outro ponto de vista, 1907-14. In:___Isso é arte?: 150 anos de arte moderna. Do impressionismo até hoje. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2012

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GOMPERTZ, Will. Suprematismo/ Construtivismo: Os russos, 1915-25. In:___Isso é arte?: 150 anos de arte moderna. Do impressionismo até hoje. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2012

MARTINEZ, Ricardo. Social Realism – What is it about? Disponível em: http://www.widewalls.ch/socialist-realism-art/. Último acesso em 12 de agosto de 2017.

Modern Art Movements: 1870s to 1980s. Disponível em: <http://www.theartstory.org/section_movements_timeline.htm&gt;. Último Acesso em 12 de agosto de 2017.

SCHARF, Aaron. Construtivismo. In:___ STANGOS, Nikos (org.). Conceitos da Arte Moderna. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 1991. (2ª Edição)

SCHARF, Aaron. Suprematismo. In:___ STANGOS, Nikos (org.). Conceitos da Arte Moderna. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 1991. (2ª Edição)

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