Senhores da Guerra, drogas e as contradições da Guerra ao Terror no Afeganistão

 

A primeira etapa da guerra ao terror conduzida pelos Estados Unidos, na sequência dos atentados de 11 de setembro de 2001, foi a invasão do Afeganistão, cujo objetivo de longo-prazo era a sua transformação em um Estado democrático. Um dos imperativos dessa missão era colocar fim à capacidade de produção e exportação de drogas daquele país, atividade percebida como corrosiva da economia e das instituições democráticas.

Apesar dessa diretriz, os anos que se seguiram à invasão norte-americana foram aqueles que registraram os maiores índices de produção de ópio da história afegã. Essa contradição é resultado da estratégia adotada pelos Estados Unidos para alcançar outros dois imperativos na busca pela democracia: a derrubada do governo Talibã  e a destruição da Al Qaeda.

Desde o início, os Estados Unidos apostaram no seu poderio aéreo para destruir a infraestrutura talibã e, paralelamente, no financiamento de diferentes milícias contrárias ao regime para conduzir a ofensiva terrestre. Essa estratégia culminou na rápida derrota do Talibã e na dispersão da Al Qaeda, mas também teve o efeito de fortalecer os senhores da guerra aliados, que desde a década de 1980 possuíam fortes laços com a produção e tráfico de narcóticos no Afeganistão.

Os narcóticos no Afeganistão de 1980 a 2001

Na guerra do Afeganistão contra a União Soviética, de 1979 a 1989, os Estados Unidos que durante toda a Guerra Fria evitaram o confronto direto com os soviéticos, optaram pelo financiamento de facções armadas locais – os mujahidin – para combater a URSS. Parte dos recursos financeiros foi desviada e investida na produção e processamento de drogas e na consolidação de uma rede transnacional de tráfico, sobretudo, de ópio.

Com o encerramento do conflito, e o consequente fim do financiamento externo a esses grupos, o tráfico de drogas passou a ser a principal fonte de recursos para os mujahidin, que de 1992 a 1996 travaram uma guerra civil entre si, da qual o Talibã emergiu como vencedor.

O regime do Talibã, ao contrário do que poderia se esperar, não baniu a produção de narcóticos. Em vez disso, passou ele mesmo a dominar o mercado da droga afegão e fazer dele a sua principal fonte de financiamento. Somente em 2001 a produção teve uma queda acentuada, resultante da proibição ao cultivo da papoula – planta a partir da qual se produz o ópio – imposto pelo Talibã no ano 2000, como tentativa de melhorar a sua imagem internacional.

O gráfico a seguir mostra a evolução da produção de ópio no Afeganistão desde os anos 1980 até 2001.

producao-opio-de-1980-20001

Fonte: Afghanistan Opium Survey 2005, UNODC.

A invasão norte-americana e a expansão da produção de ópio

 Os Estados Unidos ao recorrerem mais uma vez aos senhores da guerra no Afeganistão, dessa vez para derrubar o Talibã, investiram milhões de dólares nesses grupos através da CIA. Dinheiro que, a exemplo do ocorrido na década de 1980, serviu para reativar as redes de produção e exportação de narcóticos que permaneceram intactas durante o período do Talibã.

Além disso, os senhores da guerra alcançaram papel de destaque dentro da estrutura política do Afeganistão. Quando o Talibã debandou, os vácuos de poder criados foram ocupados por diferentes facções que passaram a controlar inúmeros territórios nas zonas afastadas da capital, Cabul.

A coalizão internacional – instaurada em 2002 e liderada pela OTAN – viu-se duplamente dependente dos senhores da guerra. Primeiro pela incapacidade de se projetar para além dos arredores de Cabul e prover a segurança contra a insurgência do Talibã que se reorganizava a partir do Paquistão. Em segundo lugar, a inteligência para as forças dos Estados Unidos perseguirem a Al Qaeda através do país, provinha dessas facções.

Essa dupla dependência levou a uma conduta permissiva da coalizão internacional em relação aos narcóticos. Afinal, perseguir uma forte agenda de repressão às drogas significaria atacar os negócios dos senhores da guerra dos quais dependia a frágil estabilidade política do recém-criado governo do Afeganistão.

Esse cenário permitiu o rápido crescimento da produção de ópio no país. Como aponta o Escritório das Nações Unidas para Drogas e Crime (UNODC, na sigla em inglês) o plantio de papoula saltou de 8 mil hectares, em 2001, para 74 mil hectares, já em 2002.

As regiões de maior influência dos senhores da guerra, ou seja, no sul e norte do país, foram as áreas que apresentaram maior crescimento no cultivo de papoula nos anos que se seguiram a invasão. A província de Kandahar teve aumento de produção de 162%; Farah, 348%; e Nimroz, impressionantes 1370%, como mostra o gráfico.

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Fonte: Afghanistan Opium Survey 2005, UNODC.

Em 2004, o Serviço de Pesquisa do Congresso dos Estados Unidos apresentou um relatório informando que o Afeganistão, naquele ano, fora responsável por 87% de toda produção mundial de ópio. O maior índice, contudo, viria a ser registrado em 2014, quando a área destinada ao cultivo de papoula atingiu a marca de 224 mil hectares, levando a uma produção potencial de ópio de 8 mil toneladas. Segundo estimativas do UNODC, nesse ano, o negócio do ópio no Afeganistão rendeu 853 milhões de dólares.

Não foi apenas o empreendedorismo dos senhores da guerra que impulsionou o aumento expressivo, a população rural – que é maioria no país – também se beneficiou da produção de ópio. Em 2003, enquanto o algodão, segunda principal cultura do país, rendia em média 540 dólares por hectare, o cultivo da papoula gerava até 12.700 dólares. Os agricultores, empobrecidos, até hoje financiam as plantações através dos adiantamentos dos senhores da guerra que, assim, a um só tempo garantem a produção e conquistam a lealdade dos camponeses.

O forte apoio aos senhores da guerra, seu enriquecimento e fortalecimento político e militar são elementos que causam tensão e corrompem as estruturas de governança afegãs. Ao priorizar a contra-insurgência e a guerra ao terror, os Estados Unidos, contraditoriamente, propiciaram não apenas o aumento recorde da produção de narcóticos naquele país, mas, as próprias condições para a consolidação de atores que a qualquer momento podem desafiar a autoridade do governo central, colocando em risco a frágil e recém-nascida democracia do Afeganistão.

Fontes:

BUSH, George W., 15 de novembro de 2001, Crawford, Texas. Disponível em: http://www.washingtonpost.com/wp-srv/onpolitics/transcripts/bushtext_111501.html . Acesso em: 12 jun.2016.

CHANDRA, V. (Jan de 2006). Warlords, Drugs and the ‘War on Terror’ in Afghanistan: The Paradoxes. Strategic Analyses. 30(1), pp. 64-92. Disponível em: http://www.idsa.in/system/files/strategicanalysis_vhandra_0306.pdf  Acesso em: 09 mai.2016.

Congressional Research Service. (2004). Afghanistan: Narcotics and U.S. Policy. Washington, D.C.: Library of Congress. Disponível em: http://fpc.state.gov/documents/organization/39906.pdf . Acesso em: 09 jun.2016.

GOODHAND, J. (Junho de 2008). Corrupting or Consolidating the Peace? The Drugs Economy and Post-conflict Peacebuilding in Afghanistan. International Peacekeeping, 15(3), pp. 405-423.

UNITED NATIONS OFFICE ON DRUGS AND CRIME. Afghanistan Opium Survey 2005. Disponível em: https://www.unodc.org/documents/crop-monitoring/Afghanistan/afg_survey_2005.pdf . Acesso em: 08 jun.2016.

UNITED NATIONS OFFICE ON DRUGS AND CRIME. Afghanistan Opium Survey 2015: Socio-economic Analysis. Disponível em: https://www.unodc.org/documents/crop-monitoring/Afghanistan/Afghanistan_opium_survey_2015_socioeconomic.pdf . Acesso em: 08 jun.2016.

UNITED NATIONS OFFICE ON DRUGS AND CRIME. Afghanistan Opium Survey 2015: Cultivation and Production. Disponível em: https://www.unodc.org/documents/crop-monitoring/Afghanistan/_Afghan_opium_survey_2015_web.pdf   Acesso em: 08 jun.2016.

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