Relato do seminário: “Haiti: dilemas e fracassos internacionais”

Na tarde do dia 06/11/2014 foi realizado mais um seminárioda programação do programa de pós-graduação em Ciência Política da USP, intulado “Haiti: dilemas e fracassos internacionais. O palestrante, prof. Ricardo Seitenfus, foi representante da OEA no Haiti  entre 2009 e 2011, e esta lançando um livro relatando sua experiência no país, o que lhe possibilitou fazer um balanço sobre a atuação da comunidade internacional na intervenção da ONU.

Ao longo de toda palestra Seitenfus criticou abertamente a intervenção. Segundo ele falta conhecimento sobre o país caribenho, que foi a única colônia a se libertar da metrópole através de uma rebelião de escravos. A revolução haitiana foi a mais radical de todas e, devido a isso, o país foi excluído das relações internacionais durante muito tempo e ainda paga pela ousadia até os dias de hoje.

O Brasil comanda o braço armado da MINUSTAH, tendo gastado, segundo Seitenfus, mais de 1 bilhão de dólares na operação, que no total mobilizou cerca de 30 mil soldados, um número maior do que o contingente da FEB na 2°Guerra Mundial. Sua avaliação é que a missão de paz das Nações Unidas, que começou em 2004, é uma mais mal organizada até então.

A MINUSTAH conta com a participação de diversos países latinos americanos. No entanto, Seitenfus acredita que a intervenção vai contra a tradição desses países de não interferência em países estrangeiros, principalmente quando o assunto é eleições. Outro ponto importante ressaltado é o fato de que não havia motivo real para a intervenção, visto que o país não possuía um exército e não ameaçava nenhum vizinho à época.

Em fevereiro de 2004 o presidente eleito Jean-Bertrand Aristide começou a sofrer pressão interna para deixar o cargo. Aristide não tinha força suficiente para se manter na presidência e acabou deixando o país no dia 25/02/2004, em um avião dos EUA. Até então o Brasil apoiava o presidente eleito, porém entre os dias 25/02 e 04/03 houve uma mudança no posicionamento brasileiro. No dia 04/03 o porta voz da presidência da república anunciou que os EUA haviam convidado o Brasil para participar da intervenção.

O que aconteceu entre os dias 25/02 e 04/03 para que houvesse uma mudança brusca no posicionamento brasileiro? Motivado por essa indagação Seitenfus faz uma investigação que o leva a algumas suposições. Devido à impossibilidade de analisar os documentos do Governo, pois há uma cláusula de confidencialidade, ele busca no Foro de São Paulo as respostas para sua pergunta.

Em 2000, devido às conturbadas eleições parlamentares, o Foro de São Paulo rompe com Aristide. A partir de então o único partido haitiano a participar do Foro é o ex-partido comunista e atual Organização do Povo em Luta (OPL), do principal opositor a Aristide na época, Pierre-Charles. Seitenfus lembra que Marco Aurélio Garcia, antes de ser o conselheiro diplomático de Lula era secretário-executivo do Foro de São Paulo.

Teria a esquerda latino-americana se unido à direita republicana dos EUA para derrubar o presidente haitiano? Não é possível responder com certeza. Entretanto as conseqüências da intervenção, que teve seu mandato estendido, já podem ser notadas. Em 2006 houve uma nova eleição presidencial e Seitenfus apontou possíveis fraudes no processo que elegeu o candidato da direita René Préval.

Em 2010, para piorar a já conturbada situação, aconteceu um terremoto catastrófico. O terremoto foi seguido por uma epidemia de cólera, que Seitenfus credita a algum membro da MINUSTAH. Desde então o Haiti virou um balcão de negócios para ONG’s e militares; eleições municipais não foram convocadas e o atual presidente passará a governar por decreto em 2015.

O tema da palestra foi sobre o que pode ser considerado como um dos grandes passos da política externa brasileira na década passada. O Brasil tem aspirações para conseguir uma vaga no Conselho de Segurança e acreditava-se que o caminho para Nova York passava por Porto Príncipe. Apesar das críticas feitas pelo prof. Seitenfus, o Brasil continua a se envolver em operações de paz, o General Carlos Alberto dos Santos Cruz comanda a operação de paz no Congo

As críticas feitas a atuação brasileira podem muito bem ser feitas também a Organização das Nações Unidas. A atuação do Brasil foi orquestrada junto à organização, que no começo da missão através do então secretário-geral Kofi Annan, declarou ue a missão tinha data para começar, porém não para acabar. Portanto as críticas feitas ao país são pertinentes, mas devem ser acompanhadas de críticas também a ONU e ao modo como as perações de paz são conduzidas.

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