Semana de Ri: Relato do cine-debate “Etz Limon”

A tarde desse último dia da XII Semana de Relações internacionais da PUC-SP contou com uma roda de conversa acerca do filme Limoeiro [Etz Limon, Eran Riklis,França/Israel/Alemanha, 106′, 2009]. Mediaram o debate a Profª Natália Félix de Souza, do nosso curso aqui na PUC-SP, e Ana Paula Pellegrino, da PUC-Rio.

Salma Zidane é uma viúva palestina cujo sustento vem de sua plantação de limões – herança da família – localizada na linha de fronteira entre Israel e Cisjordânia. Quando Israel, Ministro de Defesa israelense, se muda para a casa ao lado, os limoeiros se tornam uma ameaça à segurança nacional. Lutando contra as determinações da Força de Segurança, Salma chegará ao Supremo Tribunal Isralense. Sua determinação desperta o interesse de Mira Navon, sua nova vizinha, e uma conexão entre as duas mulheres é criada. O que acontece na Corte influencia Salma, mas também toda a comunidade palestina.

Acaba aqui minha (re)contação da história dirigida por Eran Riklis.

Etz Limon é mais que um filme que aborda o conflito Israel/Palestina. É a um só tempo explícito e sutil. Um filme israelense fazendo crítica a Israel – Estado e personagem.Criticando o que se faz em nome da segurança e da paz.  Tratando de problemáticas que vão além daquelas que se esperaria de um filme americano retratando o conflito. Suas escolhas imagéticas e narrativas comprovam: filmes falam muito, tudo é significável e diferentes questões podem surgir. E foi em torno dessas questões que construiu-se o debate.

Fronteiras são o assunto inevitável e falar delas é também tratar de resistência e subalternidade. Os três se correlacionam de forma intrincada na realidade e isso se reflete no filme.

A fronteira mais óbvia talvez seja a territorial entre os dois Estados, mas há que se notar também a divisão entre público e privado, entre pessoal e político, entre onde se pode estar e onde não se pode. Pela percepção da fragilidade de todas essas fronteiras se constrói o filme e, de certa forma, constroem-se as sociedades. Políticas migratórias, definições do inimigo a ser combatido, hierarquias sociais dependem da existência de fronteiras.

Questioná-las é, portanto,  questionar as subjetividades criadas de ambos os lados; é, pela resistência, desafiar a subalternidade; fazer a mesma pergunta que  a teórica indiana Gayatri Chakravorty Spivak fez em um de seus artigos: “Can the Subaltern Speak?” Sendo atores sociais podemos, pela desconstrução e pela apropriação de nossos lugares políticos, fazer com que o subalterno fale.

O poder de agência e o local de fala das personagens foram outra questão levantada. Muito conectada com debates do movimento feminista, tal questão leva a pensar nas categorias construídas para determinar papéis sociais e possibilidades de ação. Outro ponto interessante debatido foi a escolha do diretor em abordar o conflito do ponto de vista privado e com isso instigar a constatação de que o pessoal é político e, inclusive, internacional. Um caso entre duas pessoas vizinhas é assunto do Estado e tema abordado internacionalmente. Da mesma forma, e no caminho inverso, assuntos internacionais e de segurança nacional afetam diretamente pessoas. Enquanto agentes do sistema internacional não podemos perder isso de vista em meios as tantas teorias.

Ponto de partida de um debate longo e muito proveitoso, Etz Limon foi escolha acertada para a Semana.

 

Veja +

Etz Limon – filme na íntegra com legendas

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