A Inutilidade das Teorias de Relações Internacionais

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Considere como pressuposto um fato qualquer. O que o “eleva” a um âmbito internacional? A ideia de fronteiras ou de relações entre Estados? Direitos humanos ou uma rede de interesses? Massacres, revoltas ou dinheiro? Se formos enumerar todos os atributos que tornam um fato qualquer em um fato internacional podemos passar um bom tempo pensando. Em muitas vezes uma palavra de uma pessoa possui uma abrangência internacional, uma ideia qualquer, um vendedor de frutas indignado. Por óbvio que fatores tão diminutos não possuem uma influência direta ou ampla, mas as ações que eles podem desencadear através de um efeito borboleta podem criar um verdadeiro turbilhão.

A verdade é que a questão sempre gira em torno da busca de um padrão, uma correlação de comportamentos. Estamos sempre a busca de repetições, tentando compreender a engrenagem das situações. Se soltar um papel na altura da minha cabeça, ele irá cair em direção ao solo, se eu repetir o experimento o resultado provavelmente se repetirá. Se X ocorre, portanto Y vai acontecer. Encontramos um padrão, e nosso cérebro começa a ficar alegre, ele está entendendo o seu redor! Começa até a fazer predições: o papel cairá até o solo! E através da observação e raciocínio lógico nasce ai uma teoria.

Mas, e se o papel não cai? A realidade conhecida subitamente modificou-se! Perplexidade seguida de negação: não pode ser. Passando para o último estágio, aceitação: bom, temos aqui uma exceção! Estuda-se a exceção para saber se ela realmente nega a teoria, ou se apenas driblou com algum artifício ou força a teoria. Afinal despendi tanto tempo na minha teoria e meu raciocínio é tão perfeito, não pode estar errada.

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Nas relações internacionais deparamo-nos constantemente em situações como essas. Teorias são construídas, teorias são contestadas. Aparece um fato histórico, a experiência propriamente dita, e invalida a teoria. Novas teorias são construídas. Novamente vários de seus pilares são derrubados. Criam-se modelos, modelos que explicam tudo mas que, na verdade, seu trunfo reside em não explicar nada. Particularmente inteligente esse último.

Outra teoria surge e argumenta que o problema está na metodologia, ou na epistemologia mesmo. Ou simplesmente que a visão ontológica dos fatos está simplesmente desconexa! Não importa. Se tomarmos como ponto de partida que o menor dos fatores podem influenciar o maior dos eventos, até que ponto vale a pena inventar teorias para encontrar padrões que, até então, não foram encontrados e que muito provavelmente nem existem?

No entanto, toda reflexão leva a um ponto em comum: a busca pela compreensão dos fenômenos, sejam eles naturais ou humanos. Tendo isso em mente, é inegável o valor didático e agregador que as teorias podem ter, da mais esdrúxula até a mais elaborada. Apesar dos apesares, e do que aparentam, as teorias de Relações Internacionais possuem grande valor enriquecedor, justamente por não possuírem um caráter dogmático, mas sempre incerto e até certo ponto desconcertante.

O que não devemos é cair em um orgulho e um culto ao próprio ego. A maioria dos teóricos criam uma aura de proteção aos seus egos, grande parte passaram tanto tempo elaborando suas teorias que se tornaram simplesmente incapazes de reconhecer falhas, têm um carinho com as suas teses. As Teorias de Relações Internacionais não devem ser observadas como verdades ou como pano de fundo de análise. As teorias devem ser utilizadas como ferramenta de observação da realidade e não como a própria realidade, como muitos estudantes e mestres o fazem.

Mesmo assim, se estudadas com sabedoria, conhecer as teorias é algo extremamente valioso, seja como exercício mental, seja como uma boa forma de ampliar as abordagens e visões da realidade internacional.

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Uma resposta para “A Inutilidade das Teorias de Relações Internacionais

  1. Muito bom o artigo, Bruno!

    De fato, algumas vertentes teóricas em Relações Internacionais são construídas mediante o que o autor enxerga sobre a “realidade internacional”, vide Waltz e seus três níveis de análise, desenvolvendo posteriormente o engessado “realismo estrutural”.

    Quando diz que “as Teorias de Relações Internacionais não devem ser observadas como verdades ou como pano de fundo de análise. As teorias devem ser utilizadas como ferramenta de observação da realidade e não como a própria realidade, como muitos estudantes e mestres o fazem”, pensei nas abordagens teóricas realistas.

    Do seu tema, achei que poderia ser explorado também o que se entende por “realidade”. Mesmo utilizando as teorias com sabedoria, cada autor pode tomar uma “realidade própria” como objeto de análise e simplesmente desconsiderar tantas outras, perpetrando, assim, a metodologia, epistemologia e ontologia que lhe convém utilizar. Refiro-me aqui às teorias explanatórias em Relações Internacionais, claramente as mais prestigiados e que, consequentemente, diminuem a expressividade de estudos com traços mais sociológicos, culturais e até mesmo ético-morais (com carga de normatividade) presentes, por exemplo, em algumas teorias constitutivas.

    Até!

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