Entrevista professora Claudia Marconi e estudante Julie Lund sobre Projeto Cenários

Entrevista Claudia Marconi, professora da PUC-SP e coordenadora do Projeto Cenários.

Como surgiu a ideia de retomar um projeto de simulação da ONU na PUC?

A ideia em um primeiro momento partiu dos próprios alunos desde que eu me aproximei do curso em 2010. Um semestre depois eu formalizei uma proposta para coordenação no sentido de institucionalizar uma atividade de simulação para Relações Internacionais e quiçá abrir essa oportunidade para outros cursos da universidade e eventualmente até para receber alunos de RI de outras universidades

Você acredita que a demanda dos alunos por simulações é uma demanda que está em ascensão?

Eu acredito que não. Na realidade, já houve um momento áureo das simulações dentro da área de RI. O MONU, o modelo da ONU da PUC, simbolizava esse momento nos anos 2000, onde havia grandes modelos que conseguiam mobilizar alunos de distintas partes para se concentrarem nas capitais.

Com a proliferação dos cursos de RI, sobretudo em São Paulo capital, o que se percebeu foi uma diluição dessa demanda, ou seja, os alunos começaram a se satisfazer com as iniciativas próprias do seu ambiente universitário, pois praticamente toda universidade hoje tem uma pequena simulação ou um pequeno grupo de simulação.

No entanto, entendo que pela própria projeção da PUC, pelo próprio vanguardismo do curso, a gente tenha uma boa oportunidade de capitalizar a demanda existente.

Aqui, tivemos cerca de 60 inscritos. Para um curso do porte da PUC é uma porcentagem muito marginal, mas ainda assim se pensarmos no AMUN da UnB, um evento de praticamente uma década de aniversário, eles conseguem hoje reunir do Brasil inteiro umas 250 pessoas, quer dizer, assumindo isso como uma referência, não estamos tão aquém em termos quantitativos

Você acredita que os estudantes vêm sendo estimulados pela Universidade para a participação?

Eu acho que todo projeto novo enfrenta algumas pequenas resistências. As barreiras que encontramos são em relação à infraestrutura (dificuldade na locação de espaços, falta de flexibilidade de datas e horários…). Porém em termos de respaldo da coordenação, desde que eu cheguei à universidade eu tenho esse caminho aberto. A percepção da coordenação é de que se os alunos entendem que a atividade é importante e que tem um professor do curso com vontade de fazer a iniciativa dar certo, o caminho está aberto.

O apoio da coordenação foi imprescindível, tanto para a construção de um site, disponibilizando a área da tecnologia da informação, como para a comunicação com os estudantes. Então eu percebo que tudo isto é a manifestação de um apoio, além de uma preocupação da coordenação em ampliar as atividades práticas dos estudantes, ideia que já está até embutida na mentalidade da reforma da matriz curricular, com aquilo que se denominaram oficinas de RI.

Em sua visão, qual o ganho do Projeto Cenários em relação ao antigo SIMOPUC? Existem diferenças?

Existem sim. Há uma diferença inicial de ambição. O Projeto Cenários no sentido do porte é muito menos ambicioso, tanto que a nossa ideia não foi em nenhum momento, quando percebemos a real demanda pelo projeto, abrir as portas da PUC para receber alunos de fora ou fazer um evento fora da PUC ou ainda, ter a ilusão de nesse primeiro momento angariar financiamento externo. Elaboramos o projeto do zero em termos de recurso, o que tínhamos era capital humano. E nesse sentido, há uma diferença grande com o MONU, pois na época deste havia muitos estudantes da própria PUC envolvidos e depois até abriu-se a porta para estudantes de outros lugares participarem da própria organização. Mas, a meu ver, isto fez com que o projeto se descaracterizasse como da PUC. Contudo, compreendo que foi uma solução daquele momento para falta, talvez, que os diretores sentiam de apoio. O projeto começou muito intenso e aos poucos foi perdendo escala. Nós estamos fazendo justamento o inverso, pensaremos em maiores ambições no transcorrer do projeto.

Outra diferença é a proposta acadêmica que temos vinculada ao Projeto Cenários. Eu não posso dizer até que ponto existia ou não no projeto anterior, mas isso nunca era manifestado para o delegado. Eu mesma participei como delegada diversas vezes e entendi o evento como simplesmente uma atividade de simulação. Aqui, nossa proposta é de reunir um grupo de alunos para estudar a fundo distintos arranjos institucionais, distintos constrangimentos institucionais, diferentes possibilidades de reforma de determinados arranjos.

A ideia seria então um núcleo de estudo?

Também. Entendemos que o Projeto Cenários precisa se desdobrar em várias frentes, então a simulação da ONU seria somente um braço do projeto.

A ideia é que o projeto tenha um alcance mais amplo, desde promover debates e palestras sobre a temática das instituições, até mesmo captar bolsas para pesquisa nessa área. Também tenho a expectativa de aproximar algumas escolas do ensino médio ao próprio curso de RI da PUC via simulação de ensino médio. Porém, hoje, o que já temos de concreto é a simulação para graduação uma vez ao ano.

Como é possível participar deste projeto tanto como diretor como em outros braços do projeto?

Bem, a ideia é que os diretores fiquem durante um ciclo, tempo de construção e realização da simulação. Depois, a ideia é que haja um novo edital. No entanto, aqueles que gostaram de participar da simulação e quiserem realizar uma pesquisa ou ampliar seus conhecimentos, podem continuar no grupo em outras frentes.

Ainda temos que planejar a entrada dos alunos no projeto, mas eu entendo que para o grupo que já participa, não é necessário algo burocratizado, pode ser simplesmente um convite para encontros mensais até desenharmos de fato a agenda de pesquisa, o tipo de inserção acadêmica que queremos e a inserção que esses alunos podem ter a partir do grupo no próprio mercado de trabalho.

Como você encara sua participação na organização dado que você é professora e que em outras grandes simulações todo o evento é feito só por alunos?

Eu coloquei a minha participação como orientação acadêmica, ajudando os meninos a construírem os guias de estudos, indicando melhores referências bibliográficas, melhores temas, como acessar bases documentais. No entanto, isto não depõe contra a capacidade dos próprios alunos de organizarem autonomamente o evento.

Outro aspecto é de que o evento é chancelado pela própria coordenação do curso, então, nesse sentido, eu me entendo como aquela que representa a própria coordenação nessa atividade. Mas mesmo assim, minha participação é muito mais coadjuvante.

Você acredita que mesmo para os estudantes de RI que não pretendem prestar a carreira diplomática essa é uma boa experiência? De que forma o ajudará como internacionalista?

Não há duvida! Eu acho que um papel importante também do Projeto Cenários é desvincular a atividade de simulação de uma única perspectiva de carreira, a diplomática, pois a habilidade de negociação é uma habilidade esperada do egresso do curso de RI.

Na verdade, o projeto se consubstancia em uma oportunidade para que o aluno ateste habilidades e competências em negociar e descubra outras qualidades, por exemplo, como bom orador; como bom negociador informal, sem o holofote sobre ele; como bom em fazer pesquisa de qualidade; entre outras.

Assim, abre-se possibilidade de os alunos perceberem suas habilidades, além de terem um contato mais íntimo com a área de RI antes mesmo da inserção no mercado de trabalho. Ademais, é uma atividade valorizada em distintos ambientes profissionais, como câmara do comércio, consulados, empresas, fazer lobby, concursos públicos… Sem contar com os fatos de que os temas debatidos dão experiência tanto em argumentação como em termos de conhecimento relevante sobre um determinado assunto e de que a possibilidade de trabalhar em grupo permite que o aluno treine isto, já que invariavelmente terá que lidar com isto no seu cotidiano profissional.

Entrevista com Julie Lund, estudante de Relações Internacionais da PUC-SP, organizadora do Cenários Simupuc e participante de diversas simulações.

Você já participou de quais simulações?

Simulações durante o colegial, depois na faculdade AMUN no Brasil, AMUN em Chicago e UFRGSMUN.

Qual a diferença estrutural desta simulação para outras?

Do colegial para cá muda muita coisa; os Conselhos, as regras e até a abertura que os alunos têm são bem diferentes, pois ele já chegam com resoluções prontas. Já na faculdade, é mais uma questão de escolha de comitê, de temas. Cada simulação, principalmente as do Brasil, elas têm um diferencial, por exemplo, o TEMAS tem o Conselho de Segurança histórico.

Qual foi o diferencial do Cenários?

A sessão especial é grande diferencial do Cenários porque ela realmente propões uma nova linha de pensamento e uma nova estrutura para a discussão, que não tem em outros comitês, pois o único diferencial das outras simulações é algo histórico e nesse sentido o Cenários está pensando em algo para frente, algo novo.

Como surgiu seu interesse?

Eu tinha um professor de história que organizava simulações no meu colegial e ele disse que eu tenho a mania de discutir as coisas, que tava procurando aluno para participar e que eu devia participar. Eu gostei muito da primeira que eu fiz e não parei mais. Depois organizamos três simulações no colegial, o projeto cresceu muito, foi bem legal. Inclusive foi por causa disso que eu entrei em Relações Internacionais.

Você sente que é estimulado pelos professores e pela Universidade para participar de simulações?

Em relação ao Cenários, acho que foi pouco divulgado pelos professores e pela PUC. Acho que poderia ter tido uma divulgação muito maior. Além disso, a participação da PUC está muito pequena em simulações fora daqui, todos os outros cursos de RI participam em peso. A PUC tinha um grande nome em simulações e agora vão cinco, seis delegados, não tem uma participação muito grande.

Faltam incentivos e apoio da Universidade, por exemplo, falta deixar claro para o professor que faltas para ir a simulações deveriam ser abonadas, uma maior divulgação por parte do ORI, entre outras atitudes.

Você acredita que a experiência de participação em outras simulações a ajudou na organização desta?

Muito. O repasse de regras vem de outras simulações, pois as regras parecem ser algo muito complexo, mas a experiência clareia muito como as coisas funcionam, a julgar o que “está em ordem” e o que “não está”. Ajuda também no sentido de você conseguir perceber muito mais rápido o posicionamento dos países e de julgar se está condizente ou não, se as coalizões fazem sentido ou não. Então ajuda bastante, com certeza.

Como você acredita que essa experiência te ajudará no seu futuro profissional?

Acho que organizar qualquer conferência com certeza ajuda muito a saber lidar com trabalho em grupo, com instituições, com a burocracia; coisas que só se aprende ao envolver-se concretamente. Não há nenhuma perspectiva acadêmica que vai te dar a experiência da prática, de lidar com um projeto e aprender a lidar com imprevistos e soluciona-los.

Além disso, participar da simulação, aprender a se convencer, como delegado, a seguir com sua posição, a aceitar sua resolução ou não votar ela, isso é muito importante para qualquer momento que você for vender uma ideia, apresentar um trabalho, é uma qualidade que você aprender a usar com mais facilidade.

Você acredita que a cada simulação feita a pessoa ganha novas experiências relevantes ou existe um limite onde a partir de um momento de não se acrescenta há mais ganhos concretos?

Eu acho que quem participa de muitas simulações, vicia e não consegue parar. Existem pessoas formadas que continuam apoiando os modelos. Acredito que cada simulação é diferente, cada debate e o tema são diferentes, as regras sempre mudam, o país muda. Além de que é um jeito de se entender de fato o que está ocorrendo no mundo, pois há o debate e entende-se de perto a perspectiva de diferentes Estados. É diferente de ler uma reportagem. Então sempre tudo isto adiciona muita experiência ao aluno.

Por Leda Vasconcellos

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