O dia em que a polícia parou

Às portas de celebrar um ano de suas revoltas, o Egito vivenciou mais uma tragédia de grande escala, uma tristeza incomensurável para, não apenas os torcedores que estavam presentes no dia do jogo, no último 01 de fevereiro, mas uma tristeza também para a luta de um povo que dispôs de tanta energia para atingir um ideal democrático. Pensar aqui no que representa o futebol para nós brasileiros, enquanto constituinte do cerne da cultura brasileira e, olhar para o outro lado do mundo, deparando-se com tal guerra em campo, nos leva a indagar até onde de fato eferveceram ali as paixões e angústias despertadas pelo esporte.

A verdade é que, de revolta pelo futebol aquele jogo não teve praticamente nada e, não seria tão surpreendente, descobrir que foi o ápice de uma reação decorrente das frustrações acumuladas. Surpreendente, é olhar para um cenário que deveria ser de confraternização saudável tornar-se um campo de batalha, do qual ao menos 74 pessoas não saíram vivas e outras centenas ficaram feridas. O jogo que acontecia entre os times El Masry, de Port Said e, Al Ahly, do Cairo, foi palco para a briga entre duas torcidas. Os torcedores do Al Ahly compõe uma torcida chamada Ultras, que teve papel destacado nos protestos populares durante a revolta que depôs o Ditador Mubarak.

Os Ultras já são conhecidos por seu histórico de violência e até de hostilidade para com a polícia, mas desta vez a confusão excedeu todos e quaisquer limites do que se espera da angústia avivada pela paixão do futebol. Tudo começou após a invasão do campo por torcedores do Masry, que atacaram os torcedores do time adversário. Entretanto, o que merece atenção aqui, é justamente a falta de reação por parte da polícia, que, em primeiro lugar, na entrada do jogo, negligenciou a busca por objetos perigosos – que poderiam ser usados como armas – e que, em segundo, demorou a reagir ao ver iniciado o embate entre as duas torcidas.

A ação da polícia neste caso pode ser entendida como inepta e, pelo baixo contingente, associado à demora na contenção, não poderia ser diferente. Em matéria do New York Times é destacado o depoimento de Essam el-Erian, membro da Irmandade Muçulmana, no qual ele diz: “A razão para essa tragédia é a deliberada negligência e abstenção dos militares e da polícia”. A polícia teria agido sob os auspícios do governo militar, deliberadamente permitindo a violência. Mas será que para refletir sobre a importância de uma polícia comprometida para com a defesa dos cidadãos e, não do governo, é preciso assistir à perda de mais vidas civis do que já foi possível observar?

Se a tragédia no estádio foi uma revanche militar à participação dos Ultras nos protestos do ano passado na praça Tahrir, possivelmente até empregando falsos torcedores para incitar a briga, fica bastante claro que, de paixão pelo futebol esta tragédia não teve nada, o cunho foi político e a opinião pública é taxativa na crença de que foi algo premeditado, como relatado em reportagem do Estadão do dia 06 de fevereiro, que traz a opinião do cientista político Osmar Ashour, segundo o qual, não há dúvidas da conivência das forças de segurança no caso.

Até quando será preciso ouvir falar em conivência policial e assistir a desestabilização de comunidades inteiras por ação daquela que, vide o dicionário, é responsável por assegurar a ordem, a moralidade e a segurança em uma sociedade? Enquanto toma partido das vontades do governo, ainda mais numa sociedade em meio à própria reconstrução, ou enquanto toma partido próprio, como se vê nas recentes greves em cidades brasileiras, a polícia mais ameaça do que protege.

Desprovida de segurança, a população fica à mercê da violência e, pior ainda, fica sujeita a crer na desmoralização da polícia, um efeito bastante negativo para uma instituição que já vem sendo desgastada ao longo dos anos. Em matéria da Carta Maior de 07 de fevereiro, levanta-se a questão da necessidade de se revisar o papel da polícia militar, historicamente atuante como força repressiva e, não como polícia de segurança. Embora seja fato que o pensar e discutir a atuação das forças de segurança são sempre atividades elucidativas e benéficas, conquanto permitam melhorar a estrutura da sociedade como um todo, entrar em greve não parece caracterizar-se como alternativa altruísta ou zelosa da condição humana.

Em ambos os casos, a polícia aparece como figura ainda muito atrelada às vontades de manutenção do poder de seu governo central, mas ao mesmo tempo, sua atuação a nível territorial, através da criação de novos meios de interação para com as comunidades locais das cidades, denota de alguma forma a revisão desse papel. A polícia egípcia, todavia, imersa em um contexto ainda muito abalado e incerto para poder estabelecer-se como responsável pela moralidade e segurança local e, da mesma forma, a polícia militar brasileira à deriva num momento de crise estrutural e tentando estabelecer seus direitos de reivindicação trabalhista, ambas parecem estar distantes de moralizar sua imagem neste contexto e, estabelecer deste modo, algum peso frente ao poder de seus respectivos governos.

Posto que há falta de interesse por parte do governo para solucionar os problemas existentes no setor de segurança pública, vemos não apenas a disputa de quem consegue defender melhor seu quinhão, mas também vemos a população sofrer as consequências, como sempre. Em dez dias, foram 157 homicídios na região metropolitana de Salvador, mais do que o dobro do registrado nos dez dias anteriores. Pessoas assustadas, optando por não sair de casa e ansiando para a situação se estabilizar.

Longe de recriminar a reivindicação dos policiais, ou de descaracterizar a sua figura legítima, o presente artigo pretende reforçar a necessidade de pensar primeiro no indivíduo, pois, se este não fosse um ator relevante do cenário internacional, não tornaria tão alardeados acontecimentos como estes. É de suma relevância que o reconhecimento do setor esteja à altura do seu papel na sociedade, mas sem que isso implique em deixar de estar à altura da importância de defender, acima de tudo, a vida humana.

Por fim, faz-se necessária uma reflexão: Quando justamente aqueles responsáveis por manter a estabilidade não o fazem, a quem se deve recorrer? Se fosse apenas um contexto isolado, se fosse a primeira vez que a população se encontrasse desprovida de defesa e, se realmente as partes estivessem inclinadas a procurar a solução mais proveitosa para todos, talvez não soasse tão catastrófica, nem a greve, nem a transição do governo no Egito. Acontece que, em um mundo tão cheio de si, discutindo temas de direitos humanos, elaborando metas e traçando planos para um dia o ser humano viver em paz, parece que foi esquecido que esse ser humano precisa ser protegido hoje e que, precisa ser colocado hoje em primeiro plano.

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