O crime (bem) organizado

Por Kelly Komatsu Agopyan

Semana passada, 13 membros da quadrilha liderada pelo israelense Yoram El Al foram presos em 15 estados brasileiros pela Polícia Federal. A quadrilha era acusada por uma série de crimes relacionados ao tráfico internacional de drogas, lavagem de dinheiro, contrabando de carros de luxo, jogos ilegais entre outros. El Al era o israelense mais procurado pela Interpol, e mantinha também, fortes relações com a máfia israelense comandada pela Família Albergil.

Carros de luxo apreendidos: entraram no país pelo esquema criminoso de El Al

Esse caso da máfia que atuou durante antes sem impunidade apenas exemplifica a realidade de que o crime organizado está cada vez mais organizado e bem articulado, movimentando bilhões de dólares através de suas atividades ilícitas. É importante, primeiramente, distinguir o crime organizado de outros tipos de crime não organizados e que tenham motivações e objetivos distintos. O crime organizado está intimamente ligado a organizações criminosas com alto nível de ordenação, normalmente de forma hierárquica com regras e condutas próprias e que podem atuar de forma globalizada (em rede ao redor do mundo), como as máfias. Essas organizações tem como objetivos principais a aquisição de dinheiro (muito dinheiro) e poder. Essas breves distinções possibilitam separar o crime organizado de outras formas de crime, como por exemplo, terrorismo (que tem motivações políticas) para que dessa forma seja possível analisar o crime organizado de forma mais precisa e objetiva.

O crime organizado está imerso em uma mistura de “legalismos e ilegalismos” que carece de uma linha de separação precisa entre os dois. Há uma forte correlação entre o uso de instituições legais e atividades lícitas com atividades ilícitas. Ou seja, o crime organizado precisa do lícito (bancos, empresas de “fachada”) justamente para legalizar o lucro obtido pelas atividades ilícitas (que normalmente são o tráfico de drogas, tráfico de armas e produtos de luxo, jogos de azar e etc.) conseguindo fazer com que essa riqueza realmente tenha algum valor efetivo e que a organização conquiste algum poder. Acrescenta-se a isso, a necessidade da distinção (criada pelo Estado para a organização social) entre o lícito e o ilícito para viabilizar as atividades do crime organizado. Isso quer dizer que, as atividades ilegais não seriam tão rentáveis se não fossem justamente consideradas ilegais pelo Estado (e legitimadas como tal também pela sociedade).  Além disso, a corrupção também está conectada com o crime organizado, sendo prática comum entre indivíduos do próprio governo se relacionar com o crime organizado para também obter lucros e benefícios (e talvez, em alguns casos, proteção).

"Lavagem de Dinheiro"

Assim, há uma ligação intrínseca entre a existência dessas organizações criminosas com o Estado, já que é o próprio Estado que “dita as regras” do jogo que possibilitam que o crime organizado se fortaleça. Teria aí uma contradição: o crime organizado (supostamente) combatido pelo Estado é criação (mesmo que indireta ou não-intencionada) do mesmo.

Ao mesmo tempo em que o crime organizado está tão próximo do Estado, o fato de muitas máfias organizadas realizarem atividades transnacionais movimentando dinheiro e drogas de diferentes países mostra que há uma vertente do crime organizado que “sai” dos limites estatais e que se expande para o internacional. No Brasil, poderosas máfias que surgiram, por exemplo, na Itália (“Cosa Nostra”), Japão (“Yazuka”) e Rússia (“Máfia Russa”) atuam livremente, transpondo fronteiras e disseminando suas atividades. Seria o crime organizado então, externo ou interno ao Estado? Teria o crime organizado surgido e se fortalecido tanto nos braços do Estado que conseguiu enfim, se libertar das amarras do aparato estatal e migrar para outros destinos, tirando forças de outros mecanismos?

Dessa forma, pode-se argumentar a possibilidade de que apesar de Estado e crime organizado estarem conectados, há de alguma forma, no mundo atual globalizado, uma ruptura (ou uma menor dependência) do crime com o aparato Estatal, já que o primeiro está se tornando cada vez mais organizado e complexo, criando máfias poderosas que ultrapassam as fronteiras dos seus países de criação e se espalham por todo mundo, produzindo muito mais riqueza e estimulando cada vez mais atividades ilícitas transnacionais. A pergunta que fica então é a seguinte: o crime (bem) organizado e poderoso da atualidade teria conseguido encontrar outros mecanismos para garantir sua sobrevivência fora do Estado? Ou essa ligação continua intacta mesmo com o crime transnacional?

Distribuição das principais máfias ao redor do mundo - clique

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5 Respostas para “O crime (bem) organizado

  1. Muito bom Kelly!
    Reflexão muito interesse e atual, ainda que a própria criação dos Estados Modernos remeta à atividade criminosa…

  2. Extremamente curiosa e, talvez infelizmente, muito real a relação sobre o surgimento do crime organizado como reflexo da ação do Estado.
    Podemos notar em várias organizações criminosas esse fator de nascimento e crescimento estatal. Mas em alguns casos esse crime, de organização só tem o nome, como alguns integrantes de facções criminosas já relataram (talvez até ingenuamente).
    Será que não é esse o segredo da permanência dessas organizações? A falta de centralidade, de organização efetiva, dificulta a ação de restrição do Estado sobre elas.
    Ou será que é o fato dessas organizações estarem intrinsecamente ligadas ao Estado e à sua própria natureza de ser que as tornam tão difíceis de erradicar?

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